Manifesto por uma Urbanologia

As cidades são uma das mais formidáveis invenções humanas. Um produto da sociedade constituído na relação com a natureza, elas são pontos de encontro, de troca, de contato, de intercâmbio, de novidades e de diferenças. Ao longo da história, as cidades mudaram muito, mas até hoje ainda enfrentam desafios de tempos muito distintos, que se cruzam em esquinas urbanas.

A cidade é o lugar do conflito, e por isso nunca haverá apenas uma resposta para as questões urbanas. A política é produto da pólis, portanto as práticas que acontecem na cidade são políticas por excelência.

Durante décadas e séculos, inúmeros estudiosos se ocuparam da tarefa de pensar a cidade. Arquitetos e sociólogos, geógrafos e cientistas políticos, economistas e historiadores, engenheiros e sanitaristas, pintores e poetas, fotógrafos e músicos. É difícil pensar qual campo do conhecimento não tem uma dúzia de pitacos para dar sobre a cidade.

Inspirados e alertados por Henri Lefebvre, reconhecemos que nenhum destes olhares, sozinho, é capaz de compreender a cidade na sua completude, intensidade e complexidade. Nem mesmo o urbanismo fora capaz de nos dar todas as respostas.

Nossa aposta é outra. Nosso olhar busca ver a cidade com olhos de especialistas acadêmicos e de cidadãos leigos, de engenheiros e passantes, de planejadores e poetas. A cidade não pode abrir mão das Engenharias nem das Humanidades, das Ciências da Terra nem das Ciências da Vida. A cidade precisa de cálculos exatos e de literaturas fluidas. Principalmente, a cidade não pode abrir mão dos conhecimentos populares, produzido por quem faz a cidade. No espaço heterogêneo e fragmentado dos homens rápidos e homens lentos de Milton Santos, é preciso encontrar o passo que nos permita caminhar pelas temporalidades urbanas sem ignorar cotidianos.

Nossa aposta é na urbanologia, um modo de olhar a cidade que produza mais perguntas que respostas. Precisamos de incertezas e dúvidas, porque a fluidez urbana desmancha os monumentos arrogantes da certeza.

É hora de repensar a cidade.